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Veja 9 sinais de que seu amigo é tóxico e como se distanciar sem precisar confrontá-lo

Um duelo sem legitimidade

Historicamente, o amor romântico tem sido priorizado em relação ao amor de um amigo. O cinema é testemunha disso: para cada mil filmes que abordam o tema do desgosto amoroso, deve haver um que explore em profundidade o que acontece após o rompimento de uma amizade.

Cynthia Zaiatz, neuropsicóloga e chefe do departamento de saúde mental do Sanatório Modelo de Caseros, sugere que isso se deve em grande parte ao fato de um relacionamento amoroso trazer consigo a possibilidade de construir uma família (embora muitos casais já não busquem esse objetivo), enquanto a amizade não se caracteriza por um projeto de vida compartilhado.

— Muitas pessoas priorizam o relacionamento amoroso, deixando as amizades em segundo plano, por medo da solidão — observa Zaiatz.

Enquanto o término de um relacionamento amoroso segue um roteiro social — terapia de casal, infidelidade, separação, divórcio, luto, “ex”, entre outros rótulos que nomeiam o processo de fim de uma relação —, nas amizades não existem cláusulas, regras ou manuais para organizar a experiência emocional do fim de um vínculo. E, portanto, também não está claro o que é apropriado e o que não é.

Em um artigo publicado no PubMed, Grace Vieth, pesquisadora da Universidade de Minnesota, comenta sobre isso: “Muitas pessoas estão dispostas a resolver conflitos em um relacionamento amoroso, mas não em uma amizade”.

Os motivos mais comuns

Ao analisar o fim de uma amizade, estudos em psicologia dos relacionamentos mostram que a maioria dos rompimentos não ocorre devido a grandes conflitos, sendo mais comum uma dissolução gradual. Nesse sentido, especialistas concordam que os motivos mais frequentes estão relacionados à passagem do tempo, mudanças e desequilíbrios no esforço investido na manutenção da relação, detalhando alguns deles a seguir:

  • Mudanças em valores, interesses ou estilos de vida. “Transições como relacionamentos, parentalidade, empregos ou mudanças de residência modificam ritmos, prioridades e a forma como a energia emocional é distribuída. Elas não implicam necessariamente negligência, mas sim reconfigurações de identidade que tornam certas formas anteriores de conexão incompatíveis; às vezes, a amizade não consegue se adaptar à nova estrutura”, afirma Gavric Berrios.
  • Dinâmicas prejudiciais. “Relacionamentos marcados por dependência, manipulação ou falta de reciprocidade não são sustentáveis”, afirma Zaiatz, enfatizando o último ponto: “Quando uma pessoa dá mais do que recebe — em termos de escuta, disponibilidade, cuidado ou esforço — o vínculo se desgasta.”
  • Competitividade, ciúme ou comparação constante. “Quando o relacionamento se torna um espaço de rivalidade em vez de apoio, o bem-estar emocional sofre”, afirma Gavric Berrios, explicando que fica difícil acompanhar a outra pessoa em suas mudanças. “Às vezes, a evolução e o crescimento não são tolerados, gerando ressentimento ou afastamento.”
  • Conflitos específicos. “Traições, enganos, brigas irreconciliáveis ​​ou falta de apoio em momentos cruciais podem acabar abruptamente com uma amizade, sem volta”, explica Zaiatz.
  • Confiança abalada. “Mentiras, deslealdade, triangulações… a confiança é a base da amizade e, uma vez abalada, é difícil de recuperar”, argumenta Gavric Berrios.
  • Comunicação evasiva. “O acúmulo de tensões não resolvidas cria distanciamento emocional e, com o tempo, indiferença ou hostilidade”, observa Gavric Berrios. “Se uma das partes confronta e a outra evita, ou se uma se expressa intensamente e a outra se fecha, a resolução torna-se impossível.”
  • Microagressões. Formas sutis e repetidas de invalidação, desconsideração ou manipulação que geram um desgaste cumulativo até atingir um ponto de saturação. “Comentários ofensivos, piadas passivo-agressivas, minimizar problemas, críticas disfarçadas de conselhos”, exemplifica Nasimbera. “Elas são especialmente prejudiciais porque, como não são reconhecidas como agressão, a pessoa leva muito tempo para estabelecer limites”, alerta Gavric Berrios.
  • Expectativas incompatíveis. Quando uma das partes espera mais proximidade, resposta ou atenção do que a outra, isso gera frustração e distanciamento, explica Gavric Berrios, além de saturação, sensação de invasão e até ressentimento.
  • O fim dos ciclos. “É o mais difícil de aceitar”, diz Nasimbera. “Muitas amizades não aceitam que o ciclo da amizade terminou. É difícil entender que seguir caminhos diferentes não significa que estejam brigando ou se dando mal, simplesmente se distanciam.”

Como curar

Embora seja difícil de aceitar, o fim de uma amizade muitas vezes não acontece de forma compartilhada e, consequentemente, o processo de luto é completamente unilateral. Referindo-se a estudos que mostram que a repressão emocional pode levar ao isolamento, angústia e fadiga, Zaiatz enfatiza que “é importante reconhecer nossa perda e validar nossos sentimentos”.

— O encerramento pode ser interno, pessoal e intrínseco, sem contato com a outra pessoa, um processo de desapego e libertação. Isso implica uma grande dose de aceitação, em relação ao fato de que não seremos capazes de saber ou compreender tudo — afirma Gavric Berrios.

Dependendo do tipo de relacionamento, do nível de conflito e da disponibilidade emocional de ambas as partes, uma conversa final pode ser apropriada.

— Conversar é útil quando há possibilidade de escuta mútua, quando o término foi confuso e quando ambas as partes buscam clareza sobre o que aconteceu para alcançar paz de espírito e cura emocional. Não é aconselhável quando a dinâmica é desigual, manipuladora ou violenta. Também não é recomendado quando a outra pessoa se recusa a admitir sua parcela de responsabilidade na situação. Nesses casos, a conversa só seria dolorosa, sem possibilidade de resolução — diz a psicóloga.

Zaiatz e Nasimbera listam uma série de 10 recursos emocionais para superar o vazio que surge com o fim de uma amizade:

  1. Nomeie e reconheça a dor sem minimizá-la.
  2. Escrever cartas (não necessariamente enviá-las) é uma forma de processar emoções.
  3. Reavalie seus próprios limites e padrões de relacionamento.
  4. Redefina suas redes de apoio. Cerque-se de outras pessoas que realmente oferecem o suporte necessário.
  5. Evite idealizar e tenha uma visão equilibrada do relacionamento.
  6. Reorganize as rotinas para reconstruir o significado e o sentimento de pertencimento.
  7. Pratique o autocuidado concreto: descanso, movimento, espaços para desfrutar do momento.
  8. Concentre-se em atividades que reconstruam a identidade.
  9. Antes de desistir, pense se esse relacionamento ainda pode ser salvo ou se é melhor seguir em frente.
  10. Aceitar que a nostalgia não implica querer voltar ao passado.

 

Marcelo Passos

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