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Cotidiano

Um oásis em Barra de Guabiraba

Lençol freático explica as nascentes em Barra de Guabiraba

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Rodrigo Passos, da Folha de Pernambuco: 

Graciliano Ramos, no livro Vidas Secas, lembrou a luta cotidiana do nordestino contra a estiagem, como única certeza do futuro. “Cabra da peste e que vive no agreste, mas é um nordestino sem destino. Seu destino é enfrentar a seca terrível do sertão”. O que, talvez, nem o próprio escritor sabia era da existência da “Terra das águas”. Um oásis a 135 quilômetros da Capital pernambucana, no Agreste Meridional. O município de Barra de Guabiraba desconhece qualquer tipo de problema relacionado à falta de água. No meio da escassez, os 13 mil moradores da cidadezinha vivem tranquilos, alheios à crise hídrica que afeta o Estado, que enfrenta o quarto ano consecutivo de seca. Diferentemente da maioria dos pernambucanos, os guarabirabenses têm motivos para comemorar, hoje, o Dia Mundial da Água.

“Aqui é mais fácil morrer afogado do que morrer de seca”, brincou o morador da área rural de Barra de Guabiraba Manoel Martins, 68 anos. A pacata cidadezinha do interior segue à risca essa definição. Mas ali funcionam quatro empresas que engarrafam água mineral. E em breve, mais uma vai iniciar as atividades. No município não basta ter água. Tem que ser mineral. Segundo Manoel, o ano inteiro existe fartura de água. Dentro dos sítios cuidados por ele está uma das nascentes do rio Sirinhaém, que corta o município, e se esconde por entre a mata. A água brota das pedras, parece mágica, e abastece a residência do caseiro. “Tomo banho aqui. Mas uso essa água para beber, lavar as coisas”, relatou. Com uma pequena bomba elétrica ele consegue abastecer a caixa de 250 litros da casa, que duram três dias. Faz isso há 15 anos. E o nível nunca baixou.

Água boa e barata. Com apenas R$ 10 é possível comprar 6 mil litros de água mineral. Esse é o preço adotado por Josias Ferreira de Souza, 71, que vive do comércio do líquido. Ele é proprietário de um poço com profundidade de 50 metros. “Em um dia bom, consigo vender até 150 mil litros de água. Há 16 anos tenho o poço e a água nunca deu sinais de reduzir”, afirmou. Os seus principais clientes são caminhões-pipa ou caminhões carregados de toneis. A água, inclusive, é própria para o consumo, de acordo com Josias. Com frequência o Itep visita o local e realiza a coleta de amostragem do líquido para análise. “Eles sempre me dizem que a água está boa”, finalizou. E de lá, os caminhões e carretas de 30 mil litros saem para Santa Cruz do Capibaribe, Bonito e Caruaru, entre outros municípios.

Paraíso

Um passeio por entre os sítios e propriedades revelam a beleza da água espalhada pelos quatro cantos. “A água daqui não tem igual”. É a sensação e a afirmativa dos moradores de Barra de Guabiraba. Lá, os bares contam com bicas para os frequentadores tomarem banho. Algumas propriedades têm piscina de água mineral. Na fazenda Paraíso das Águas, uma fonte de água mineral alimenta um lago, que desemboca no rio Sirinhaém. Nesse local, a vazão chega a atingir 100 mil litros por hora. A água, como na maioria dos casos, é utilizada para todas as atividades cotidianas. O carinho e cuidado dos moradores com o líquido revelam consciência.

Josué Pedro Bezerra, o vereador Menininho, lembra de uma antiga propriedade que utilizava a água da fonte para irrigar plantação de banana, maracujá e cará. Essa fonte, após o falecimento do antigo proprietário, será transformada na nova empresa de engarrafamento da água mineral. A quinta da cidade. Além do lençol freático que abastece Barra de Guabiraba, a chuva parece reconhecer o caminho da cidade das águas. Durante todo o ano as precipitações pluviométricas marcam presença. Sorte de um lado, preocupação de outro. O município de Bonito, que fica bem próximo à Terra das Águas, não é tão privilegiado assim.

Lençol freático

Para o professor da UFRPE, Ênio Farias, a explicação para tanta água se dá pela presença de um lençol freático, no subterrâneo. Um privilégio proporcionado pela geologia da região. “Provavelmente são terrenos sedimentares e, por isso, facilita a exploração de água”, explicou. Esses aquíferos, continuou, contam com zonas específicas que são abertas para ocorrer a recarga ao longo dos anos. Alguns pontos com mais facilidade, outros nem tanto. Tudo de acordo com função da geologia. Que, para Barra de Guabiraba, parece ser indiscutível.

Mesmo sem um risco aparente de baixas no aquífero, o cuidado principal ainda é evitar desperdício. O primeiro passo é orientar os moradores. Em seguida, monitorar, para que o oásis não se acabe.

Apac – A Agência Pernambucana de Águas e Clima contabiliza sete poços em Barra de Guabiraba. Quatro deles já foram expedidos o Parecer de Viabilidade de Exploração (PVE’s), o que significa que estão autorizados a perfurar o poço para depois entrarem com processos de licença e outorga de água. Dois já contam com o processo deferido e um ainda está em fase de análise. Todos os postos citados têm como finalidade a comercialização de água.

 

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