Brasil
Médica é espancada por frequentadores do 'Baile do Covid-19' no Rio
Ticyana D'Azambujja contou que não conseguia dormir por conta de eventos e, em um momento de raiva, quebrou o vidro de um carro. Depois disso, foi agredida por várias pessoas
Publicada em 02 de junho de 2020 às 09:52:04.
Por: Marcos André | Fonte: FolhaPress


?A médica Ticyana D'Azambujja, 35, foi espancada por cinco frequentadores de um baile chamado Covid-19, após reclamar do barulho na casa vizinha ao seu prédio no Grajaú, Zona Norte do Rio, e quebrar o vidro do carro de um PM que estava na "Festa do Corona".




No intervalo entre dois plantões no sábado (30), a anestesista que atua na linha de frente da pandemia no Hospital de Campanha Lagoa-Barra relata momentos de terror.

Imagens mostram médica sendo carregada no Grajaú — Foto: Reprodução

“Dois caras fortões me alcançaram. Um deles me enforcou, apertando meu pescoço até eu desmaiar. Cai no chão e pisaram nas minhas mãos. Quando acordei, estava com o pé de um cara de uns 100 kg no meu tórax”, relatou Azambujja à Folha, ao retornar do IML, no final da tarde desta segunda-feira (1o).

Pela manhã, a médica de 1m50 e 45 kgs havia registrado ocorrência por agressão e tentativa de homicídio na 20a Delegacia Policial (Vila Isabel), ao computar o joelho esquerdo quebrado, duas mãos contundidas, pescoço inchado e com marcas de enforcamento e hematomas nas pernas e nos pés.

Além do exame de corpo de delito para documentar as lesões, a vítima coletou fotos e elencou testemunhas que comprovam que os ferimentos são resultados de golpes e chutes de pelo menos cinco agressores.

Entre eles o dono do veículo danificado, um PM, identificado como Luis Eduardo Salgueiro, e a mulher dele. “Ela dizia que eu tinha mexido com a pessoa errada, esfregava a identificação de policial do marido na minha cara”, diz a médica.

Xingada e ignorada pelos organizadores ao ir até o local pedir para a festa que começara ao meio-dia, Azambujja admite que por volta das 17h desferiu golpes de martelo em um Mini Cooper, modelo esportivo parado em local proibido.

“Foi uma idiotice, uma imaturidade”, admite a médica, que passara a noite de plantão e voltaria para um novo turno às 19h sem pregar o olho.

Imagem mostra confusão entre vizinhos no Grajaú — Foto: Reprodução

A tentativa desesperada de acabar na marra com uma das “Festas do Corona”, em pleno isolamento imposto para tentar conter a escalada de infeções e mortes pelo novo coronavírus, quase resultou em linchamento público em plena luz do dia.

Apavorada, ela correu em direção ao hospital italiano que fica na mesma rua. O espancamento começou em frente ao local. Nem os seguranças nem os pedestre e motoristas que assistiram às cenas de violência socorreram a médica.

Uma senhora que passava chegou a incentivar os agressores: “Mata mesmo!”. "Não adianta correr, você está morta” foi outra frase que teria sido dita por um dos homens que saíram ao encalço da médica.

“Eu gritava por socorro e as pessoas ficavam só olhando. Fiquei muito chateada porque sou muito ativa na comunidade. Já fiz plantões naquele hospital. Atendo gratuitamente. Dou receitas para quem precisa.”

Ticyana foi arrastada pela rua até em frente ao batalhão do Corpo de Bombeiro, localizado bem ao lado da residência onde tem ocorrido regularmente as festas temáticas, desrespeitando regras de não aglomeração durante a pandemia.

“Quando vi os bombeiros do batalhão da Marechal Jofre implorei por ajuda”, relata a médica.

Segundo ela, o pedido para que garantissem sua integridade física até que a polícia chegasse foi ignorado. “Eles riram e disseram que eu era bandidinha e meu lugar era apanhando no chão. Deviam ser amigos do dono da festa.”

Entre a centena de vizinhos, três a acudiram. O primeiro a interceder, um defensor público, que apenas pediu ao grupo que aguardassem a chegada dos policiais também foi agredido.

“Deram um soco na boca dele, dizendo que ele estava defendendo bandido”, afirma a médica. O pânico, diz ela, foi aumentando à medida que ouvia um dos agressores pedir para que a colocassem no carro. “Vamos dar um sumiço nela.”

A pancadaria só parou com a intervenção de uma mulher loura, chamada Fabiana, que estava na festa. “Ela ficou comigo e disse que ninguém ia mais me bater.”

A médica ficou agarrada à perna da moça e sob a proteção de um casal que mora no mesmo prédio dela, que também desceu para socorrê-la.

Três patrulhas da PM foram até o local, mas o dono do veículo desistiu da queixa. “Ele me pediu R$ 6.800 para que tudo ficasse por aquilo mesmo. Não aceitei o acordo”, diz Ticyana.


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