
A Operação Alvitre apontou que o presidente da Câmara dos Vereadores de Ipojuca, Flavio do Cartório (PSD), estava por trás da principal associação beneficiada no esquema irregular de destinação de emendas parlamentares da cidade. De acordo com a investigação, apenas a empresa do vereador recebeu mais de R$ 12 milhões dos cofres públicos entre 2022 e 2025. Responsáveis pela apuração detalharam o caso durante uma coletiva no fim da manhã desta quarta-feira (19), no Recife.
A investigação constatou que a associação Filhos de Ipojuca tinha como sede um imóvel em situação precária pertencente a Flávio do Cartório. O vereador também aparece como o titular da conta de luz do estabelecimento e declarou o imóvel na prestação de contas eleitorais.
Ainda conforme os desdobramentos da operação, o vereador colocou um amigo de longa data como presidente da associação e preencheu a diretoria com familiares e pessoas próximas. O gestor foi preso com R$ 14 mil e não soube explicar o sistema de destinação de emendas em seu depoimento.
“Quando a gente foi realizar o interrogatório dele, deu para perceber que é uma pessoa de pouca instrução. Estudou somente até a oitava série e não sabia sequer explicar o que era uma emenda parlamentar”, afirmou o delegado Ney Rodrigues, da Delegacia de Ipojuca.
A associação Filhos de Ipojuca recebia a quantia anual de R$ 230 mil para manter um projeto de escolinha de futebol. Contudo, a partir de 2023, a entidade se tornou destino de repasses na ordem de R$ 5 milhões para a prestação de serviços de assistência básica de saúde. Sem a devida capacidade técnica e operacional para executar atividades do segmento, a associação subcontratava outras empresas de fachada para ter acesso aos recursos.
“Até 2022, a associação celebrava termos de fomento com o município e recebia em torno de R$ 230 mil por ano para executar projetos ligados aos esportes, escolinhas de futebol. A partir de 2023, depois da anulação de uma emenda impositiva que tinha sido destinada a outra associação de Paulista, em relação a qual houve denúncias de que era uma associação de fachada, essa emenda foi anulada e foi redirecionada para essa associação Filhos de Ipojuca”, explicou a promotora Katarina Gouveia.
Parlamentares são alvo
O delegado Ney Rodrigues ressaltou que nove parlamentares serão investigados e mais de 20 empresas podem ter lucrado com o esquema. Um dos institutos investigados por receber altos valores está alocado uma casa residencial em Caruaru, o que reforça os indícios de ser uma empresa falsa.
“As investigações seguem para tentar entender por qual motivo cerca de nove parlamentares enviavam emendas para essas associações específicas”, frisou.
Nessa terça-feira (18), os vereadores Flávio do Cartório (PSD) e Professor Eduardo (PSD), presidente e vice da Câmara de Ipojuca, no Grande Recife, foram presos ao sair de um supermercado no bairro de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, com cerca de R$ 14 mil em espécie.
Flávio já era monitorado e tinha um mandado de prisão em aberto. Já Professor Eduardo acabou preso em flagrante.
Operação Alvitre
A Operação Alvitre apura o envolvimento dos vereadores em desvios milionários de recursos de emendas impositivas através de empresas e instituições.
Nesta quarta (19), agentes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de Pernambuco (Gaeco/MPPE) e da Polícia Civil cumpriram três mandados de prisão e 19 de busca e apreensão, inclusive na sede da Câmara Municipal. Os envolvidos também foram alvo de ordens de bloqueio de ativos financeiros, sequestro de bens e suspensão do exercício de função pública.
Rachadinha
Durante a ação policial desta quarta, agentes do Gaeco apreenderam anotações com uma lista com nomes de servidores da Câmara e valores que somam R$ 345 mil. O material reforça o indício de um suposto esquema de rachadinha dentro da Casa Legislativa
Homicídio de denunciante
Uma funcionária da Faculdade Novo Horizonte, uma das empresas investigadas, foi morta em casa após tentar denunciar o esquema.
Ela também presidia uma das associações envolvidas e foi intimada a depor no dia 28 de outubro, mas o depoimento foi remarcado para o dia seguinte e ela foi assassinada horas depois de deixar a delegacia.
“Chama atenção a forma como ela foi morta, mas a gente não tem nada de concreto que demonstre a relação entre a morte dela e o desvio de verbas oriundas de parlamentares”, observou o delegado Ney Rodrigues.








