Pernambuco

Instituto de treinamento em ‘cadáveres frescos’ causa polêmica no Recife

A chegada de uma nova instituição de ensino no Recife tem causado polêmica antes mesmo da inauguração. Trata-se do Instituto de Treinamento em Cadáveres Frescos (ITC), que está em fase de implementação no bairro de Parnamirim, na Zona Norte da cidade.

Segundo o blog #OxeRecife, moradores e pessoas que circulam pelos arredores do novo instituto teriam ficado intrigados com o nome do local, afixado em acrílico na fachada. Parte da vizinhança teria se incomodado com a instalação do espaço, por considerar a localização imprópria por conta proximidade com colégios do bairro.

No site, o instituto afirma ser o primeiro no Brasil com com cursos para as áreas médica e odontológica, com treinamento em cadáveres frescos. Diz, também, que promove o aprimoramento de técnicas, tecnologias e procedimentos em diversas especialidades das áreas da saúde, com cursos de prática imersiva.

O burburinho em torno do instituto aumentou quando uma parte do letreiro — justamente o trecho com as palavras “cadáveres frescos” — foi encoberto por uma espécie de faixa, alimentando a teoria de que o local estaria gerando desconforto na vizinhança.

Diante disso, o g1 procurou a administração do ITC e pesquisadores em anatomia e conservação de cadáveres para entender o porquê de estudos com corpos de pessoas mortas e as controvérsias relacionadas ao modelo adotado pelo espaço.

Cadáveres frescos

Embora o nome possa levar a crer que “cadáver fresco” é alguém que acabou de morrer, Nara Aguiar, gestora do ITC Recife explicou ao g1 que o termo se refere ao tipo de conservação do cadáver. O método mais comum utilizado no Brasil é o embalsamamento por formol, um produto químico.

“A gente chama de fresco porque a conservação é livre de formol, feita através de congelamento em baixíssima temperatura. […] Eles vêm dos Estados Unidos e Europa, em transporte aéreo e acondicionamento específico, de acordo com a legislação brasileira. Abaixo de 17 graus”, contou a gestora.
Ainda de acordo com ela, o principal objetivo do instituto é prestar uma educação continuada com peças — termo técnico para se referir aos corpos ou partes deles, utilizadas em ensino e pesquisa — mais próximas do que os profissionais de saúde encontrarão na prática, durante os atendimentos e procedimentos.

“Imagina bater em uma madeira, esse é o cadáver no formol. O médico não consegue estudar direito e, quando ele se depara com a realidade, não consegue atuar. Comete erros médicos e os pacientes sofrem com as consequências da falta de treinamento correto”, contextualizou.

Sobre o letreiro coberto, Nara pontuou que se tratou apenas de uma questão de manutenção. “As letras tinham uma ‘luzinha’ de LED e estavam descolando. Como chove e faz sol direto, a gente achou melhor cobrir para fazer o reparo”.

Ensino público

Embora a ideia de utilizar um corpo humano morto para estudos possa incomodar algumas pessoas, a professora Elizabeth Neves, curadora do acervo de cadáveres da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explicou ao g1 que o método é “insubstituível”, mesmo com a utilização de materiais de apoio, como réplicas sintéticas.

De acordo com ela, “os reflexos da turbulenta história no uso de cadáveres humanos conduziram a necessidade de regulamentar a utilização de corpos para ensino e pesquisas”.

A legislação brasileira impede a comercialização de cadáveres, mas é possível disponibilizar o próprio corpo, ainda em vida, para ser utilizado em estudos, após a morte. É nisso que trabalha o professor de anatomia da Universidade de Pernambuco (UPE) Edvaldo Xavier. Ele é coordenador do programa de doação de corpos da instituição, o “Doar Para Viver”.

“A ideia do programa é desmistificar e informar a população que existe, para além da cremação, a possibilidade de doar o corpo para a ciência, para estudos e para a preparação de futuros profissionais da saúde. Às vezes esse conhecimento nesse corpo que foi doado gera a descoberta de uma nova técnica cirúrgica, que pode vir a salvar um ente querido”, contou.
Questionado sobre a possibilidade de uma parceria entre o ITC e universidades públicas como a UPE e a UFPE, o professor Edvaldo disse que seria possível, caso houvesse uma cooperação técnica formal entre as instituições, mas que essa parceria poderia esbarrar em questões éticas.

Segundo ele, não está claro qual é o modelo de aquisição e descarte dos cadáveres frescos. Em teoria, as peças seriam alugadas, já que a legislação brasileira não permite a compra.

O g1 perguntou ao ITC como deve funcionar o processo de descarte das peças, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.

Marcelo Passos

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