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Cotidiano

Mulher denuncia colega de trabalho que desejou volta da escravidão ‘Você ia ter que fazer sexo comigo, disse homem’

Você ia ter que fazer sexo comigo, disse homem, segundo funcionária da empresa Club Med

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Queria que a escravidão voltasse. Não ia ter conversa, você ia ter que fazer sexo comigo.” Eunice Cides de Oliveira, 30, temperava com azeite a sopa de legumes com frango que trouxe de casa, mimo do marido chef. Coisa de mulher: faz dieta por achar que está acima do peso (não está). O que era para ser mais um almoço como tantos outros na vida desta agente de viagens da Club Med se tornou rapidamente, segundo ela, assédio sexual com fortes contornos racistas. 

Ela diz que ouviu a frase que abre o texto de um colega no escritório onde os dois trabalhavam, em Botafogo (zona sul carioca), em 10 de setembro.

“Eu estava na copa, conversando com as meninas. Esse funcionário pegou no meu braço, chegou dizendo que queria que a escravidão voltasse, que eu teria que fazer sexo com ele, repetindo o tempo todo que eu deveria fazer o que ele quisesse, como se fosse a coisa mais normal do mundo”, Eunice afirma à Folha. “Ainda fazia gestos como se estivesse me chicoteando, fazendo sexo comigo.”

Na hora, afirma, “só consegui dizer algo do tipo ‘sério que você vai falar isso mesmo?’. Ele continuava rindo, como se fosse brincadeira”. 

Segundo a agente, a resposta da empresa foi decepcionante, e seu superior, assim que soube de tudo, a chamou de “chata pra caralho”.

Ela conta que chamou seu coordenador para relatar o episódio no mesmo dia. “Contei já desesperada, tremendo demais. Ele me levou para uma sala restrita, chamou outro supervisor. Eles queriam que eu fosse conversar com o agressor. Respondi que eu não tinha condição nenhuma. Foram lá falar com ele, e o cara disse que ia me pedir desculpa quando cruzasse no corredor.”


O advogado dela, Bruno Cândido, diz que registrou uma ocorrência por injúria racial no Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) contra o suposto assediador racista, Sérgio Simões, e contra o coordenador por injúria simples, crime com menor potencial ofensivo. 

A Polícia Civil do Rio confirma o recebimento e informa que o caso foi registrado e que diligências estão sendo realizadas para apuração dos fatos. 

O homem por ela acusado acabou demitido dias depois. Mas isso, de acordo com Eunice, só aconteceu após a situação ficar insustentável. Havia testemunhas corroborando que o suposto agressor era reincidente em “piadinhas e falas assediadoras”, ela diz.

Eunice afirma ainda que o supervisor para quem relatou tudo não só fez pouco caso a princípio como antes da demissão do funcionário enviou mensagens pelo WhatsApp a xingando. Seu advogado encaminhou à reportagem prints da conversa. Após mensagens de áudio, o superior diz: “Filha da puta!! Chata pra caralho!!!!”.

Isso aconteceu três dias depois de ela ter denunciado o suposto assédio na copa. “Tinha acabado de falar com meu coordenador ao telefone, explicando justamente que ia na consulta com a psiquiatra e que não tinha ido ao trabalho por pedido da psicóloga. Depois que terminamos a ligação, ele, na intenção de mandar mensagem para o outro chefe, mandou errado, pro meu WhatsApp.”

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