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Cotidiano

É possível ler a mente dos cachorros?

Um time de inventores suecos criou um dispositivo que promete traduzir o que se passa na cabeça de um cão

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Cachorro com o dispositivo No More Woof

Um par de fones de ouvido, dois eletrodos e um microfone. Essa é fórmula do projeto “No More Woof” (“Chega de Latido”, em português), desenvolvido há um ano por inventores suecos daSociedade Nórdica para a Invenção e Descobertas (NSID), para revelar os pensamentos dos cães. Por 65 dólares é possível comprar uma versão simplificada do dispositivo, que promete identificar cansaço, fome e curiosidade. Ao desembolsar 300 dólares, o comprador recebe um produto que seria capaz de distinguir quatro ou mais pensamentos.

Funciona assim. Os eletrodos do dispositivo fazem um eletroencefalograma em tempo real do cachorro, e identificam padrões. Os padrões elétricos são então transmitidos aos fones, conectados a um software de interface cérebro-máquina e traduzidos em voz alta por um microfone. Dessa forma, quando menos se espera, o cão avisa: “Estou cansado” ou “Quero brincar”.

“Tínhamos um sensor de eletroencefalograma no escritório — aqui na Suécia eles podem ser encontrados em qualquer loja de brinquedos, pois são usados para interagir com videogames — e o colocamos na cabeça de um cachorro que estava brincando por ali. Vimos que ele emitia sinais e tivemos a ideia”, explica Per Cromwell, responsável pela criação do produto. 

A cognição canina é um assunto ao qual muitos pesquisadores têm se dedicado. Em uma pesquisa publicada neste mês no periódico Behavioural Processes, o neurocientista Gregory Berns, da Universidade Emory, nos Estados Unidos, descobriu, com a ajuda da ressonância magnética, que os cães têm a habilidade de experimentar emoções positivas, como amor e apego. Berns e os inventores nórdicos se dedicam a responder a mesma questão: “Em que meu cachorro está pensando?”. O que varia — e muito — é o rigor metodológico empregado. 

Da equipe sueca fazem parte designers, cientistas, técnicos e artistas — “alguns deles malucos”, esclarece Cromwell. “Nossa tecnologia mede a quantidade de atividade cerebral. Se ela é muita, então sabemos que, provavelmente, o cão está curioso ou agitado, o que se traduz como ‘Quero brincar’ ou ‘O que é isso?’. Se a atividade é menor, sabemos que o cão está cansado e, provavelmente, diria ‘Quero ficar sozinho'”, explica. Até o fim do ano, a promessa é identificar mais padrões e desenvolver versões chamadas “superiores”.

Para isso, o time lançou em dezembro uma campanha de crowdfunding para arrecadar recursos na plataforma digital Indigogo. O objetivo era criar “o primeiro protótipo para traduzir pensamentos animais em inglês”. Da meta de 10.000 dólares, os suecos arrecadaram mais que o dobro: 22.664 dólares.

Mais criatividade que ciência — O grupo de inventores nórdicos deixa claro em seu site que todos os seus produtos devem ser encarados como esboços ou suportes de pesquisas. Além do tradutor de pensamentos caninos, eles criaram um tapete mágico para animais de estimação (que eleva a 7 centímetros do chão bichos com até 2,4 quilos), uma nuvem para colocar dentro de casa e reproduzir o clima exterior e uma cadeira de balanço que recarrega iPads e iPhones.

“A Sociedade é feita, principalmente, de pessoas criativas com um grande interesse em tecnologia. Somos mais criativos do que científicos”, explica Cromwell. “Como nosso trabalho é conceitual, precisamos de mentes ágeis. Cientistas às vezes não são tão flexíveis, então tentamos encontrar pessoas que tenham um conhecimento maior de coisas diferentes.”

Sinais confusos — A crítica talvez seja dirigida a neurocientistas e especialistas em comportamento animal, que se unem para dizer que a invenção sueca não deve ser levada a sério. Por enquanto. “O projeto descrito no site ‘Chega de latidos’ não é ciência”, afirma o neurocientista Attila Andics, pesquisador da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria. “Na minha visão, um grupo de pessoas criativas e entusiasmadas apareceu com algo divertido e agora está querendo dinheiro para testá-lo — sem, talvez, ter consultado um especialista no assunto.”

Segundo Gregory Berns, o eletroencefalograma não é a estratégia adequada para analisar os sinais cerebrais de emoções em cães. “Diferentemente dos humanos, a maior parte da cabeça dos cachorros é feita de músculos. E o movimento desses músculos causa sinais elétricos que também são captados pelos eletrodos. Eles incluem movimentos das mandíbulas, dos olhos e das orelhas”, explica o pesquisador.

Isso quer dizer que a agitação da orelha do animal ao espantar um mosquito emitiria uma quantidade considerável de sinais elétricos. No dispositivo da Suécia, esse movimento isso seria traduzido por “Quero brincar”.

No que os cães pensam — Nos últimos três anos, Berns tem se dedicado a decifrar o pensamento canino — embora a ciência ainda não saiba se os animais são capazes de raciocinar. Ele treinou o seu cão e mais onze cachorros para se submeterem a um exame de ressonância magnética, mapeou seus cérebros e descobriu que a estrutura e função de uma de suas partes importantes, chamada núcleo caudado, é bastante semelhante a de humanos. Em nós, essa região está ligada à antecipação de coisas que gostamos, como comida ou amor. Os cães estudados por Berns mostraram uma intensa atividade no núcleo caudado quando sentiam o cheiro dos donos ou viam sinais de comida. Também respondiam positivamente quando o dono retornava após um rápido momento fora.

Suas conclusões, publicadas no periódico científico e no livro How Dogs Loves Us: A Neuroscientist and His Adopted Dog Decode the Canine Brain (Como os Cachorros nos Amam: Um Neurocientista e Seu Cão Adotado Decodificam o Cérebro Canino, lançado em 2013 e sem edição em português), indicam que os cães demonstram amor por meio de atitudes inequívocas: depois de comerem, sentam-se aos pés do dono como se agradecessem o alimento; querem dormir perto de quem passa mais tempo com eles ou fazem festa quando o dono volta depois de horas afastado.

“Nossa meta é determinar como funciona o cérebro dos cães e, mais importante, o que eles pensam de nós. Depois de treinar e escanear uma dúzia de cachorros, minha conclusão é: cães também são gente”, afirmou o pesquisador em artigo publicado em dezembro no jornal The New York Times

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