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Cotidiano

Brasil na cabeça e nas mãos: Senna elevou a autoestima de uma nação

Senna soube retribuir a admiração de seus compatriotas e, de forma espontânea

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Ayrton Senna GP do Brasil de 1993 (Foto: Norio Koike/ASE)Nesta quinta-feira, o Brasil lembra os 20 anos do adeus de um dos maiores ídolos de sua história. Em 1º de maio de 1994, durante o fatídico GP de San Marino, no circuito italiano de Ímola, Ayrton Sennase despediu de forma prematura de seus milhões de fãs e compatriotas ao bater contra o muro da curva Tamburello. Duas décadas depois, o legado do tricampeão mundial permanece forte na memória dos brasileiros.

Em 1984, Ayrton surpreendeu o mundo ao ignorar as limitações de sua Toleman e conquistar um inesperado segundo lugar no GP de Mônaco. Àquela época, os brasileiros já se entusiasmavam com os feitos de seus compatriotas na Fórmula 1, como o bicampeonato de Emerson Fittipaldi, em 1972 e 1974, e os dois primeiros títulos de Nelson Piquet, em 1981 e 1983. As façanhas de Senna, no entanto, intensificaram a adesão popular ao esporte e contribuíram para aumentar a empolgação com as corridas da principal categoria do automobilismo, então uma das poucas fontes de alegria para um país que ainda lutava para sair da sombra da ditadura militar.  

Diante de um contexto de incertezas políticas e instabilidade econômica, as vitórias que Senna começou a acumular a partir de 1985 o transformaram em uma espécie de “válvula de escape” para o povo brasileiro. O cenário esportivo, principalmente em relação ao futebol, também passava por uma fase de poucas glórias. Os feitos do jovem piloto paulista serviram, então, de compensação para aliviar o longo jejum de títulos da Seleção, que não ganhava uma Copa do Mundo desde o histórico tricampeonato no México, em 1970. O carisma singular de Ayrton foi o ingrediente definitivo para transformá-lo no grande herói nacional daquele período.

– Em termos esportivos, o futebol ainda era o esporte nacional, uma vez que na época tínhamos poucas ações efetivas de consolidação de um desenvolvimento poliesportivo. A Fórmula 1, por sua vez, ganhou amplo destaque a partir da figura carismática de Ayrton Senna. Fittipaldi pode ter tido sua brilhante trajetória de bicampeão ou Piquet pode ter sido igualmente tricampeão mundial se comparado a Senna; porém, nenhum deles mobilizou tantos afetos quando esse último. Senna era um mobilizador de afetos por onde passava e se construía dessa forma como pessoa e como piloto – opina Wagner Xavier de Camargo, antropólogo do Esporte e atual Pesquisador Júnior da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo).

Brasil na cabeça e nas mãos  

Senna soube retribuir a admiração de seus compatriotas e, de forma espontânea, incorporou demonstrações de amor pelo país durante suas apresentações nas pistas de todo o mundo. Além do icônico capacete pintado nas cores verde e amarela, o piloto eternizou o ato de erguer a bandeira do Brasil. E o gesto que acabou cativando a torcida brasileira foi originado de uma mera provocação futebolística. A Seleção havia sido eliminada nas quartas de final da Copa do México, em 1986, com a derrota nos pênaltis para a França. No dia seguinte, Ayrton desbancou os franceses Jacques Laffite e Alain Prost e triunfou no GP de Detroit. Depois de sofrer com piadinhas dos integrantes franceses da Lotus, sua equipe na época, ele chegou próximo ao alambrado, pediu a bandeira que um torcedor portava e tremulou o pano para mostrar o orgulho de ser brasileiro.

A partir de então, cada vitória de Senna se tornou uma espécie de exaltação da identidade nacional, contribuindo para elevar a autoestima de uma população que recebia pouco destaque no exterior. A trajetória repleta de desafios e superações do piloto passou também a refletir as batalhas sociais e políticas que estavam sendo travadas dentro do país, palco de uma grande mobilização pela consolidação das instituições democráticas. Ayrton começou a carreira como um jovem franzino e de aparência delicada. Obstinado, dedicou-se a um rigoroso programa de evolução física e mental, até se tornar o adversário mais competitivo do grid. Justamente o exemplo que o Brasil precisava para reafirmar o valor de seu povo. 

– A história de ascensão de um jovem e talentoso piloto culminou com um período de transformações sociais e políticas também de seu jovem e grandioso país. A história de vida de Senna era cheia de percalços, assim como era cheia de obstáculos a história do Brasil naquele momento. Senna estava para o Brasil assim como o Brasil estava para Senna, numa reciprocidade absolutamente consonante. Ser um atleta brasileiro competente e genial no cenário internacional, num momento em que o país era apenas conhecido pelo exotismo (futebol, floresta amazônica, carnaval e mulatas), tornava-se algo diferencial e colocava, evidentemente, a nação e sociedade brasileiras em destaque – argumenta Wagner Xavier de Camargo.

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